A recém-instalada Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do INSS, criada para investigar fraudes em benefícios previdenciários, já começa seus trabalhos marcada por um ambiente de forte polarização política. O clima nos corredores do Congresso Nacional evidencia que, mais do que uma investigação técnica, a CPMI se tornou palco de disputa entre governistas e oposição, antecipando o tom eleitoral que promete dominar o cenário político brasileiro até 2026.
A polarização dentro da comissão foi reconhecida por membros de diferentes partidos. O deputado Coronel Chrisóstomo (PL-RO), integrante da comissão, admitiu que a politização dos trabalhos é “quase inevitável”, especialmente por ocorrer às vésperas do ano eleitoral. “É um erro tentar negar o uso político. Tanto o governo quanto a oposição usarão esse espaço para se promover”, afirmou.
Mesmo diante do clima beligerante, o presidente da CPMI do INSS, senador Carlos Viana (Podemos-MG), tenta imprimir um tom mais equilibrado. Em entrevistas recentes, Viana garantiu que a comissão “não será instrumento de vingança política” e que os parlamentares terão liberdade para investigar com independência, mas “sem espetáculo”. O senador foi eleito justamente por ocupar uma posição mais ao centro, com capacidade de diálogo entre os blocos políticos.
“A polarização existe, claro, mas o Brasil precisa de respostas concretas sobre o que está acontecendo com os benefícios do INSS. A população exige seriedade, não mais um palanque”, destacou o senador.
CPMI como termômetro político
O movimento de antecipação da disputa eleitoral por meio de comissões parlamentares não é novidade. A CPMI dos Atos de 8 de Janeiro, realizada em 2023, teve um histórico semelhante. Embora seu objetivo fosse investigar a tentativa de golpe e os ataques às sedes dos Três Poderes, a comissão acabou dividida entre governistas que buscavam responsabilizar o ex-presidente Jair Bolsonaro e seus aliados, e opositores que tentavam inverter a narrativa. Na época, o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, alertou que a radicalização nos trabalhos poderia comprometer a institucionalidade do Parlamento. “A CPMI deve ter como base a busca pela verdade, e não o revanchismo político. Radicalizar só enfraquece a democracia”, disse Pacheco em entrevista à CNN Brasil.
O uso político das CPMIs afeta diretamente o debate público. Redes sociais e veículos de comunicação tendem a reproduzir os discursos polarizados, ampliando a desinformação e dificultando o acompanhamento técnico do que está em jogo. O tema previdenciário, por exemplo, tem sido distorcido por narrativas extremadas, que vão desde acusações de “aparelhamento” do INSS até supostas “perseguições ideológicas” a sindicatos e associações de aposentados.
Ainda que CPMIs sejam instrumentos legítimos de fiscalização e apuração de crimes, o histórico recente no Brasil mostra que muitas delas acabam tragadas pela lógica eleitoral. A do INSS, apesar de sua relevância social e econômica, corre esse risco.
Resta saber se, até o fim dos 180 dias previstos para os trabalhos, a CPMI conseguirá manter seu foco técnico ou se será mais um capítulo de um enredo político já conhecido: o da disputa entre narrativas, onde os fatos muitas vezes são deixados em segundo plano.